COMO OS MÉDICOS MORREM

TEMPO DE LEITURA: aprox. 5 minutos

Partindo dessa afirmação instigante, hoje quero aproveitar o excelente artigo da Dra. Anna Lucia Coradazzi[1] para trazer à tona, mais do que as causas de morte dos médicos, a questão dos cuidados, procedimentos e tratamentos que o atual modus operandi dos médicos e do sistema de saúde tem imposto aos pacientes com doenças graves ou em fase terminal. Assim como o enfoque que, no nosso país, as pessoas dão para a morte.

Temos o direito, nós os médicos, de impor aos nossos pacientes, gravemente doentes e sabidamente no fim da vida, o que se chama de “futilidade médica”, ou seja, usar todo o arsenal mais moderno disponível? Devemos, mesmo cientes de que eles vão morrer, submetê-los a cortes, tubos, cateteres e máquinas, fraturar costelas em tentativas inúteis de ressuscitação, apenas para prolongar a vida por alguns dias ou horas? E que vida é essa que estamos oferecendo ao paciente?

Como se depreende do artigo, isto não é prolongar a vida, mas apenas o prolongamento do processo de morrer.

E mais: morrer sozinho, sofrendo… que é o maior medo que todos os homens, aqui incluídos os médicos, têm.

Nas palavras da Dra. Ana Lucia, que corroboro: a morte não precisa ser tão triste, tão amarga…

MÉDICO E A MORTE

Médicos tendem a ser mais serenos e realistas quando encaram a possibilidade de morrer, diz a Dra. Ana. Eles sabem exatamente o que vai acontecer, conhecem suas opções, e geralmente têm acesso a todos os tratamentos disponíveis. Mas escolhem partir suavemente, de forma quase que submissa.

Óbvio que ninguém quer morrer… os médicos também! Acontece que, sabendo o suficiente sobre a medicina moderna, conhecendo os limites possíveis, preferem morrer em paz, aproveitar os últimos meses ou dias junto a familiares e amigos. Não morrem sozinhos, nem com sofrimento acrescido.

Os médicos tendem a ser mais racionais para consigo do que quando se trata de esclarecer o paciente e familiares sobre a inexorabilidade da morte, uma vez que sabem o que vai acontecer após a tomada de decisão por “fazer tudo”…

Por isso tendem a não se submeter a tratamentos ou procedimentos excessivos, com pouca ou nenhuma chance de sucesso.

Papel do médico

Diante do exposto, e dentro do princípio hipocrático fundamental da arte médica de não maleficência (primum non nocere), cabe ao médico esclarecer aos pacientes antes de impor medidas de prolongamento da vida como aqui citadas.

Do artigo: “Cabe a nós, médicos, oferecer aos pacientes a informação que nos é disponível. Cabe a nós permitir que eles compreendam que a morte não é algo a ser evitado a todo custo, e sim um momento da vida, como qualquer outro. Em muitas situações, ela simplesmente não pode ser evitada, apenas adiada, e o custo disso pode ser um sofrimento intenso e desnecessário

Não é esta sua opinião?

Leia o artigo da Dra. Ana Lucia, e deixe seu comentário abaixo.


[1] Anna Lúcia Coradazzi é médica oncologista clínica, especializada em Cuidados Paliativos. Através do blog No Final do Corredor – histórias, experiências e lições de vida – publica ótimos artigos sobre pacientes com câncer e cuidados paliativos em doentes terminais.


Gostaria de entrar em contato comigo? Basta deixar seu comentário abaixo ou nos enviar um e-mail
Algum link não funciona? Nos avise!

Veja também...